sexta-feira, 23 de março de 2012

Ode ao vento



Olhei pra dentro
e vi que no negrume havia cor
Havia vida, ódio, dor.
Percebi que o que antes era seio
Já não passa de rancor, e o suor que antes era libido agora era desabor.
No colorido dos teus olhos afoguei a solidão
No teu peito chorei magoas sem soltar um ai sequer.
Te fiz noiva, te fiz ama, acho que te fiz mulher
Só não consegui te fazer minha pois te agrada muito o orvalho da noite na face.
Do teu jeito de amar já falava Chico Buarque quando sofreu também na carne
Os encantos de Geni.
Então vai, escarnece, sorri, que enquanto o ar sair não precisas temer nada
Mas quando chegar a alvorada, só, te encontras outra vez.
Mas já que fez da nossa história, três
De mim, já não podes querer nada.

domingo, 11 de março de 2012

Coringa



As paredes do quarto começam a ficar escuras trazendo a claustrofobia de dentro pra fora.
Sabia que a hora ia chegar, olho papéis e livros, mantenho os olhos ocupados para a mente não divagar. Tento achar desculpas, me convencer de que fiz o melhor, mas a dúvida me invade e o silêncio da madrugada grita ensurdecedor. Suo frio, será que fui tão idiota¿ Rir da situação não ameniza mais sensação de inquietude. Rostos e corpos dançam diante mim num ritmo alucinado e denunciante. A respiração se torna ofegante e o vento não é o bastante para refrescar a certeza que me corrói. Aconteceu de novo, como eu disse rir não adianta mais. O calor sobe pela garganta, seco, em forma de mão invisível cortando a respiração. Mais um castelo de cartas que vai ao chão, e percebo que todas são do mesmo naipe. Tudo incomoda. O alcool, o cheiro de cigarro, procuro no ambiente motivos pra culpar algo além de mim por não mais conseguir deixar pra lá. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Hold your breath...




Os prédios da cidade só aumentaram minha sensação de solidão, e eu bebi cada momento daquele sentimento como se fosse vinho. É engraçado como a saudade tem seu charme quando achamos que ainda tem solução. As ruas eram cinzas, e a arquiterura triste de um jeito que faz você se apaixonar pelo clima de cada rua. Uma garota estava rindo e fumando, isso me levou de volta a você, adoro o jeito como ri. Mas a bebida tem esse efeito e me diverti com a risada dela mesmo sem saber o motivo. O vento amezinava a sensação de calor e imaginei todos no café com casacos elegantes e quis que estivesse ali para dividir os pensamentos.
Parei no café Tortoni, ele existe desde 1884 sabia? Uma garota gostou do meu olhar a julgar pela quantidade de momentosque retratou de mim e do meu cigarro. Tinha lindos cabelos cacheados e o ar intelectual a deixava mais bela do que relamente era. Há quem diga que cometi uma heresia escolhendo a cerveja ao café tradicional, mas a cafeína me faz lamentar demais, enquanto o alcóol me faz aceitar o que assim está. Quase senti o teu cheiro no meio da fumaça e da poesia. Um chinês riu quando pedi a conta, achou meu sotaque engraçado, não riria se soubesse o porque de tantas garrafas.
Em uma ruela uma mulher chorava ao som do tango argentino e tive vontade de me unir à ela em coro, mas não conhecia a canção. Senti a tristeza no ar, Buenos Aires tem o poder de te fazer chorar sorrindo. Em cada café, em cada livraria, sentia necessidade de ter você comigo, mas me limitei a comprar um chocolate, pra ti é claro, uma vez que não aprecio doces em geral. O caminho de volta foi lindo e lúgubre, como tem sido a cada avenida desde então. É uma pena que sejas fruto do meio em que vive, e que nunca terá  a profundidade para entender o que sente o coração dilacerado de um sentimental irrecuperável como eu.

Termos Fúteis


A umidade das paredes parece correr como ar pra dentro dos meus pulmões, e a fumaça do cigarro serve ao menos pra torná-la mais seca.
Tudo se dissolve com o tempo e a neblina lá fora lembra o frio que ainda não chegou.

A foto no espelho já absorveu muito da insalubridade do lugar, e só faz reforçar a aparência de  que muito tempo se passou. Meu olho começa a mostrar indícios das escolhas tomadas, e parece que irei lamentar por menos tempo que o esperado. Minha tinta está acabando, assim como a sua paciência, e agora onde aquilo tudo foi parar?

Na verdade o que temos é o eco do que já se foi, e a nossa frente o abismo estéril do que ainda será.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Pra não dizer que não falei das flores.














Sonhei que te vi essa noite.
 A gente estava num bar, e o clima era de que você não aparecia a muito tempo. Parece que enquanto eu fui me deteriorando, esse tempo te deu uma dignidade que nem eu, nem ninguém enxergava antes. Estava de camiseta e jeans, com um ar concentrado, daquele jeito que se chega nos lugares parecendo que está procurando algo ou alguém, mas na verdade é só pra olhar o cenário.

Teu cabelo parecia mais vivo. Os cachos dele se desprendiam um  do outro de um jeito que me fez lembrar até do teu cheiro, e faziam uma moldura perfeita pro teu jeito de franzir a testa toda vez que alguém te reconhecia.

Mas a camisa preta e o jeans realmente te fizeram bem, acostumado a te ver de vestido, lembro daquele teu “tomara que caia”, foi a primeira vez que tu me pareceu uma pessoade verdade. Porque nunca pensei em ti pagando contas, estudando, fazendo mercado. Não, eu só te via noturna. Linda. Determinada. Superficial.

Parecia outra mulher, e a maneira que você sentou no balcão, com os cotovelos apoiados, de costas me pegou desprevenido, esperava que voltasse rápido encontrasse tuas amigas e fosse lá fora fumar um cigarro.
Mas não foi o que aconteceu, nem contigo nem comigo.

Nesse sonho eu parecia morto, ou simplesmente representando o meu papel agora, nessa história toda, o meu papel de fantasma, pois você passava os olhos e como agora também não me via. Sim, fantasma mesmo, uma lembrança ruim. Mas estou falando de você, de você e do seu jeans azul.

Mas enfim, terminou o copo, finalmente foi fumar e eu te acompanhei feito fumaça, eu adoro o teu olhar distante de quem pensa muito e não diz nada. Tu parecia mais nova, mas também parecia mais madura, pode ser apenas a sobriedade que tenha te devolvido alguns anos, ou a minha embriaguês que tenha me tirado o julgo, mas a maturidade eu sei que é tua.

Tu também estava mais magra, e a camiseta justa quase me fez chorar. Nunca vou poder te dar um novo jeans, muito menos pôr aquela flor no teu cabelo. Sim eu lembro ainda até das flores.